A dificuldade da equipe econômica de Dilma Rousseff em reduzir os
gastos públicos sinaliza que a tendência é de forçar um aumento de
arrecadação, o que prejudica mais os pequenos empresários, na avaliação
de especialistas entrevistados pelo DCI:
"O ministro da Fazenda, Joaquim Levy
tem demonstrado que os ajustes fiscais serão mais por aumento de
tributos do que por corte de gasto. No projeto de lei da terceirização,
por exemplo, ele tentou inserir a tributação sobre lucro das empresas, o
que tem efeitos nas grandes, mas principalmente nos pequenos. Já há
tributação sobre a receita. Se aprovado seria uma dupla tributação",
explica o professor e economista da FIA, Alan Ghani.
Além disso, recentemente, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa,
já havia mencionado que técnicos do núcleo econômico do governo
consideram tributar lucros e dividendos, incluindo remessas para o
exterior. "A impressão é que o ministro Levy está desesperado. Ele deve
ter percebido que não consegue reduzir os gastos como em consumo ou de
salários de cargos comissionados e vê que a saída é elevar a receita com
impostos. Porém, não acredito que haverá criação, isto porque sempre
vai encontrar resistência no Congresso para entrarem em vigência",
entende Paulo Brasil, especialista em finanças e orçamento público.
Argumentações De fato, o ministro da Fazenda declarou no final de
março, durante audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos
(CAE) do Senado, que sua equipe econômica está acompanhando o desempenho
da arrecadação federal neste ano, com objetivo de atingir as metas
fiscais - a meta para o superávit primário deste ano é de 1,2% do
Produto Interno Bruto (PIB), o que há dúvidas se vai ser atingida.
Nisso, ele afirmou que o governo federal está "pronto" para tomar novas
medidas, caso seja necessário. Por mais de uma vez - tanto na audiência
do Cae, quanto em outras declarações e apresentações -, Levy tem
defendido que o governo não criou nenhum novo imposto, apenas reverteu
algumas medidas anticíclicas (para estimular a economia) que haviam sido
adotadas anteriormente. "Estamos diminuindo intensidade de algumas
ações de renúncia dentro do quadro anticíclico.Há a recomposição parcial
da Cide [dos combustíveis]. Estamos fazendo o que já existia, só que
parcial, menos do que era antes", lembrou. Para Paulo Brasil, a
sinalização mais clara é essa de que desonerações tributárias ou
anistias ou serão retiradas ou reduzidas no curto prazo.
Por outro lado, ele comenta que também é mais nítido que o aumento de
alíquotas será uma medidas mais concreta. "Há taxas de impostos que
podem ser modificadas por meio de decretos, sem que passe por aprovação,
como o Imposto de Importação ou o IOF [Imposto sobre Operações
Financeiras]", acrescentou o especialista. No entanto, no CAE,
questionado se poderia assegurar que não serão criados novos tributos, o
ministro afirmou que seria "inadequado" dizer que jamais fará isso. "O
governo tem de estar pronto para tomar ações que sejam necessárias. Mas
antes de inventar novo imposto, o governo tem de acertar os que estão
aí." Mais aumentos Ainda de acordo os ministros tanto do Planejamento
quanto da Fazenda, os técnicos do núcleo econômico também avaliam elevar
taxas de impostos principalmente sobre heranças, o que poderia, na
avaliação de especialistas, encontrar menos resistência para aprovação
no legislativo.
"Do ponto de vista político, a proposta poderia servir para agradar
os chamados esquerdistas populares. Do ponto de vista econômico, com o
aumento não teria impacto na atividade comercial, mas mesmo assim teria
dificuldades para passar [no Congresso]", analisa Paulo Brasil. Conforme
dados provisórios do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz),
a arrecadação do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de
Quaisquer Bens ou Direitos (ITCD) pelos estados, que incide sobre as
heranças, subiu 184% de 2009 para 2014 (de R$ 1,694 bilhão para R$ 4,818
bilhões), enquanto com relação ao Imposto sobre Circulação de
Mercadorias e Serviços (ICMS) - principal arrecadação
estadual - subiu 87% no período, para R$ 429,083 bilhões, o que
demonstra essa tendência de crescimento no recolhimento do ITCD, apesar
deste montante representar pouco na receita tributária dos estados.
Levy assume a presidência do Confaz A designação do ministro da
Fazenda, Joaquim Levy, para a presidência do Conselho Nacional de
Política Fazendária (Confaz) marcará o retorno do titular da pasta
depois de anos de ausência no colegiado que reúne os secretários de
Fazenda dos estados. Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, a
presidência do Confaz pelo ministro traz relevância ao colegiado e pode
contribuir para minimizar os riscos de agravamento da "bagunça" em que
se transformou o ICMS
- principal tributo cobrado pelos estados. Segundo Maílson, desde a sua
criação, em 1975, o Confaz sempre foi presidido pelo ministro da
Fazenda. A ausência do titular da pasta de suas reuniões, diz Maílson,
foi uma novidade introduzida pela ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso
de Mello, que dura até hoje.
O Confaz passou, então, a ser presidido por funcionários de menor
hierarquia, algumas vezes pelo secretário da Receita Federal. Zélia
comandou o Ministério da Fazenda em 1990. Essa prática distanciou os
ministros do contato com os secretários da Fazenda. Alguns passaram a
enviar substitutos. O Confaz, acredita Maílson, perdeu significado como
foro de debates e decisões na área tributária. "Uma parte da bagunça em
que se transformou o ICMS,
inclusive a guerra fiscal, pode em parte ser atribuída a essa ausência
injustificada do ministro", diz. Na sua avaliação, o Ministério da
Fazenda perdeu capacidade de atuar como elemento de coordenação e
harmonização do tributo. "O ministro Levy percebeu essa realidade e
parece ter-se dado conta de que presidir o Confaz tem importância,
principalmente se forem levadas adiante ideias de promover uma
verdadeira reforma tributária", argumenta Maílson, destacando que o
Confaz é o único órgão que reúne a Federação. "Em matéria de finanças
públicas e tributação, tem inequívoca relevância. Só isso já
justificaria a presença do ministro", ressalta.
Porém, o ex-ministro é cético em relação à aprovação na última
terça-feira pelo Senado Federal de projeto de lei que permite o perdão
dos incentivos fiscais concedidos pelos Estados sem o aval do Confaz
"Esse projeto tem a ver com reforma tributária, como se tem propalado.
Trata-se de mero ajuste para evitar os efeitos desastrosos da entrada em
vigor da súmula do STF, que considera inconstitucional os incentivos
fiscais não aprovados pelo Confaz", argumenta. Com ou sem essa lei,
prevê o ex-ministro, o ICMS
continuará o mesmo caos, mantendo a dianteira entre os principais
custos sistêmicos da economia brasileira, o chamado "custo Brasil". Além
disso, afirma ele, a nova lei contém um grave equívoco, o de eliminar a
unanimidade para decisões do Confaz. Isso tende a contribuir para novos
conflitos no já conturbado ambiente em que opera o ICMS.
Fonte: DCI - SP

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