Igor Gadelha, do Estadão Conteúdo
São Paulo - Se os ajustes na economia brasileira prometidos pelo
governo Dilma Rousseff para 2015 se concretizarem, o comércio varejista
deverá enfrentar mais um ano difícil, com perspectivas de crescimento
zero ou retração.
A expectativa é da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que desenha um cenário macroeconômico preocupante para o próximo ano.
Na avaliação da entidade, os prováveis ajustes serão "restritivos", o
que deverá manter os principais indicadores da economia brasileira nos
mesmos níveis de 2014.
A instituição espera, contudo, que os ajustes consigam recompor, aos poucos, a confiança das famílias e dos empresários.
"Teremos um ano difícil, embora por um bom motivo: a volta do
crescimento. Acredito que terminaremos 2015 com posição oposta à deste
ano. Enquanto estamos encerrando 2014 com o PIB desacelerando e consumo
fraco e desanimado, em 2015 estaremos na ponta oposta, com a economia
voltando a crescer, mesmo que não robustamente, mas indicando que em
2016 será melhor", avaliou Fábio Pina, assessor econômico da
FecomercioSP.
Segundo ele, as projeções iniciais para o desempenho do comércio no próximo ano variam entre zero e -2%.
"São projeções com um grau de incerteza baixo, pois estamos trabalhando
com poucos elementos concretos. Basta um deles não se confirmar e tudo
muda", ponderou.
Pina destaca que os ajustes deverão dar uma
"chacoalhada" na economia brasileira. Apesar de as medidas ainda não
terem sido anunciadas, o setor varejista trabalha com a perspectiva de
fim das isenções fiscais, como o retorno do IPI para as alíquotas
normais, cortes de gastos e aumento da carga tributária.
Com
esse cenário macroeconômico mais cauteloso, o assessor econômico da
FecomercioSP avalia que as condições de crédito deverão ser restritivas.
"Não vai ser um credit crunch, mas neste ano, se tirar o crédito
imobiliário, o crédito para consumo já foi menor", afirma.
A
entidade espera que o saldo das operações de crédito com recursos livres
suba 5% neste ano e, em 2015, fique entre 0 e queda de 5%.
Esse cenário leva em conta uma projeção para o Índice Nacional de Preços
ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, de
aproximadamente 6% no próximo ano, ante os 6,5% previstos para 2014, e
de uma taxa básica de juros (Selic) atingindo 12% ao ano em 2015.
Atualmente, ela está em 11,75%. Para o dólar, a FecomercioSP trabalha
com um cenário da moeda americana ainda "pressionada", fechando 2015 a
R$ 2,60, R$ 0,10 a mais do que a projeção para o fim deste ano.
Diante disso, a entidade espera que o Produto Interno Bruto (PIB)
cresça 1% no próximo ano, pouco mais do que o 0,5% projetado para 2014.
Já a produção industrial, após encolher 3% neste ano, deve subir 1% em
2015.
Balanço de 2014
"O comércio já foi afetado este
ano e não conseguiu sustentar o crescimento maior que o do PIB", afirma
Pina, ponderando que isso "já era esperado" porque consumo maior do que
produção gera inflação e déficit externo.
"Com muita sorte,
esperando que haja um respiro no Natal, o comércio deve ter resultado
entre -1% e 0%, sendo mais provável decréscimo", prevê.
A
previsão se baseia em um Índice de Estoques 8,4% menor, em média, do que
em 2013 e na queda da Confiança do Consumidor (ICC) e do Empresário do
Comércio (Icec) de 19,1% e 9,2%, respectivamente, em relação ao
verificado no ano passado.
Na avaliação da FecomercioSP, "cada
vez mais preocupadas com o cenário econômico", os consumidores reduziram
a intenção de compras, o que deve fazer com que o Índice de Intenção de
Consumo das Famílias (IFC) caia 10,3%, em média, em relação a 2013.
Diante disso, a entidade espera que a proporção de famílias endividadas
caia de 54,7% em janeiro para 44% em dezembro deste ano, enquanto o
porcentual daquelas com contas em atraso tende a recuar de 14,8% para
12,5% no período.
Com isso, a instituição projeta que o índice
de intenção de financiamento, que compõe a Pesquisa de Risco e Intenção
de Endividamento (PRIE), registrará queda de 4,5%.
Esses
números indicam "uma retração da propensão a consumir que pode
influenciar também o início de 2015", pondera a FecomercioSP.
A
entidade prevê que o Custo de Vida por Classe Social (CVCS) deve
aumentar nos últimos dois meses do ano, "especialmente por causa do
recente aumento da gasolina nas refinarias e da estiagem persistente que
incide sobre regiões produtoras do Brasil". De janeiro a outubro, o
indicador acumula alta de 4,85%.
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